Naquele verão finalmente havia se consumado a tal viagem à praia, era plano antigo de todos os cinco. Embora tenhamos ido apenas Abimael, o Soldadinho de Chumbo, Sérgio e eu, tudo andava na mais completa serenidade. O quinteto era quarteto e restava a nós ter de aprender a lidar com a falta do Gump. E ele fazia muita falta!
A característica permanente de nossa estadia no litoral era a mesma do que quando estávamos em qualquer outro lugar reunidos: muita cerveja, muita caipira e muitas e boas risadas...
Mas faltava aquele fato espalhafatoso, aquela demonstração de ingenuidade típica de cão novo. Sabe, faltava alguém para pôr a mão na parte de dentro de um suporte de lâmpada, na parte de cobre! Talvez nem mesmo o Gump soubesse de como era sentida a sua ausência por todos nós.
No último dia, o sol era maravilhosamente escaldante, uma brisa soprava levemente e o ânimo de todos era ressaltado pelo clima todo perfeito para uma boa despedida. A cerveja passava de mão em mão, de garganta em garganta. A rotina da praia seguia e nós estávamos ali como ébrios espectadores. Repentinamente, uma curiosa e familiar silueta foi avistada a uns metros de onde estávamos. O reflexo do sol nos confundiu por uns instantes, mas logo podemos perceber aqueles braços que terminavam quase nas canelas, aquelas mãos enormes. Talvez o reflexo tenha nos impedido de avistarmos um pescoço naquele ser, pois nada vimos, era a cabeça ligada diretamente ao tronco...
Corremos quase que abobados ao encontro do Gump. Tomou conta de nossas faces um sorriso talvez nunca antes tão satisfatoriamente contente. Era a cereja do bolo que aparecia, era o quinteto que se completava. Feitos os cumprimentos e os abraços calorosos, estávamos todos ali à beira do mar, vendo, sabe-se lá, o que passar.
Cinco era o nosso número e cinco também era o número de algumas gurias que, num quiosque perto dali, nos acenavam todas sorridentes. Fomos até elas.
O tema das conversas paralelas que aconteciam entre nós e aquelas gurias era muito variado. Mas, realizados os desdobramentos, sendo eles sobre religião ou não, decidimos todos nós, os cinco machos praianos e estupefatos, nos banharmos no mar.
Hollywood certamente nos invejaria naquele momento. Não corríamos, troteávamos em direção ao mar, era uma ida cinematográfica rumo às águas salgadas do imenso Atlântico e todos sustentávamos interiormente todo aquele charme. Em dado momento, pensei estar fazendo parte da cena de algum filme em que o mocinho entrava insinuante no mar para depois aparecer sedutoramente molhado, mas não foi nada disso. O Sérgio entrou, depois o Soldadinho de Chumbo, eu logo após, o Abimael já abria os braços para conversar com as ondas e, subitamente, um estardalhaço chamou a atenção da praia toda. A nossa glória de galãs globais mediante àquelas fêmeas estava arranhada. Olhamos estáticos para trás e vimos o Gump há pouco mais de trinta centímetros mar adentro levantar tonto, com a mão a esconder o nariz bastante esfolado e também a sua barriga. Incrédulos, nós não rimos, nós tivemos ataques súbitos de gargalhadas. Um de nós já nem mais gargalhava, mas gritava e apontava com o dedo para o Gump, a fim de que todos pudessem saber do autor daquela grande barrigada. A praia paralisou-se. Muitos desconhecidos também sorriam, gargalhavam. Lembro de ter visto o pai puxar pela mão a pequena filha e levá-la para fora da água, para longe do Gump, devido ao impacto assustador daquela cena, a criança, pois, poderia se traumatizar tamanha a suposta loucura daqueles rapazes.
Ao justificar-se, mesmo que isso fosse desnecessário, Gump havia nos dito que automaticamente pensou em dar um ponto quando molhou os pés na beirinha da água e o fez. Ora, pobre dele que não soube diferenciar o mar de uma piscina pública...
O fato ocorrido naquele último dia de praia foi, certamente, um dos mais engraçados que aconteceu conosco. Claro, há outras histórias, outros autores (como aquele que pegou as havaianas e...), mas a barrigada do Gump marcou demais como um grande momento cômico do quinteto.
Quando velho, quero contar aos meus netos sobre o acontecido, mas também quero dizer que sem qualquer um de nós, muito menos o Gump, aquele pequeno grupo não era animadamente completo. Apesar de ambos terem seguido, acertadamente, os próprios caminhos, o Abimael, O Gump, o Sérgio e o Soldadinho de Chumbo, bem sabem de como éramos e assim como eu, às vezes devem lembrar com a saudade mais feliz do mundo das nossas histórias. Bons os tempos de quinteto...
"Hollywood certamente nos invejaria naquele momento" cara DEMAIS...
ResponderExcluirvejo os cinco na praia ao ler este texto...demais!!!só quem conhece os personagens consegue perceber a perfeição das descrições!!!!
ResponderExcluirCara escutando algumas canções do Vinicius de Moraes encontrei uma que com certeza irá agregar nessa história, a canção fala um pouco de uma coisa que as vezes arde SAUDADE....
ResponderExcluirAmigos meus (Vinicius de Moraes e Toquinho)
Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita pra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
Pra vida lá fora continuar
Tem sempre aquele
Que toma mais uma no bar
Tem sempre um outro
Que vai direitinho pro lar
Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha pro show voltar
E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
Pra gente comemorar
Que demais... Parabéns pelas palavras...
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