sexta-feira, 8 de maio de 2009

Fuga.

Que essa noite me traga a dose incerta
Da bebida santa, o espesso fel,
Que me venha logo a solidão aberta,
Que me sejam os delírios todos em papel.

Cai-me bem a névoa calma,
O desejo em pêlo, proferido há tanto:
Observaste, olho nu, rebelde alma,
O céu, as estrelas, único manto.

Tão cedo foste, criatura atenta,
Previdente da mais impura ambição,
Que corrói a carne, percepção aumenta,
Desarticula o sentido, a oração.

Sejamos ambos mero artifício
Ao olhar da coruja, que prediz o medo,
Pois me encanta muito teu suplício
Que a mim também me veio cedo.

Um comentário:

  1. "tão cedo foste, criatura atenta..."

    seria um ser? uma criação? um novo poema? uma canção? e assim jogaste mais alguns pontos de interrogação no ar. Fuga ou busca?

    Somente mesmo a percepção sensível do olhar da coruja que ao dia parece desmembrar a cegueira, ou talvez o medo? e a interrogação continua, somente vc caro poeta, artificio das palavras que te usam para jogar ao mundo as interrogações da "desarticulação dos sentidos e da oração"....

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